*Antonio Francisco Costa.

É bastante preocupante para o mundo, para o equilíbrio, para a paz e o bem-estar das nações os reiterados movimentos sociais em forma de rebeliões que vêm assolando países europeus.

Este pernicioso fato político-social nos impulsiona a olhar pelo retrovisor do tempo e focar nas perversas “invasões bárbaras”, também denominadas de Período das Migrações ou Völkerwanderung, que nada mais foram do que um grande movimento de deslocamento de povos não romanos, principalmente de origem germânica, eslava e asiática, se deslocando em direção ao território do Império Romano, isto ocorrido no período compreendido entre os séculos IV e IX d.C.

Este termo “bárbaro”foi definido pelos romanos de forma pejorativa para designar qualquer povo que não falasse o latim, que não compartilhasse da cultura greco-romana e que não obedecessem às Leis do Império.

Mas as principais causas daquelas migrações eram a pressão dos Hunos, povos nômades vindos da Ásia Central, liderados por Átila, avançavam sobre a Europa e empurravam as tribos germânicas para dentro das fronteiras dos territórios romanos; também, a crise interna de Roma, conquanto o Império Romano do Ocidente já viesse enfrentando graves problemas econômicos, problemas com a corrupção, divisões políticas e o enfraquecimento do seu exército; e, a atração que existia pelas terras romanas, com os germanos buscando solos férteis, riquezas e melhores condições de vida.

Neste movimento que, então, somente crescia, os principais povos envolvidos eram os Visigodos, um povo fugindo dos hunos, que invadiram os territórios romanos, saquearam Roma em 410 e fixaram-se na Península Ibérica; os Vândalos, que percorreram a Gália e a Hispânia, conquistaram o norte da África e saquearam Roma em 455; os Hunus, que eram liderados por Átila, e que espalharam terror militar pela Europa Central e Ocidental no século V; os Herulos, estes liderados por Odoacro,e que foram fundamentais no desfecho político do Império; e outros povos como os Ostrogodos, Francos, Suevos, Anglo-Saxões e Lombardos.

Quais as consequências daqueles violentos movimentos de invasões territoriais? As principais consequências foram a queda do Império Romano do Ocidente, no ano de 476 d.C., quando o líder bárbaro Odoacro depôs o último Imperador Romano, Rômulo Augústulo, tendo-se aí o que se chama de fim da Antiguidade e o início da Idade Média; a formação dos Reinos Germânicos quando as antigas províncias romanas deram origem a novos “Reinos” como o Reino Franco e o Reino Visigótico; a ruralização da sociedade, uma vez que as cidades perderam força e a população começou a migrar para o campo, iniciando-se, a partir dali, o processo de desenvolvimento do feudalismo; bem como a fusão cultural religiosa, quando começou a haver a interação entre costumes germânicos e a herança latina, com grande parte desses povos se convertendo ao cristianismo romano.

Nos dias atuais, assistimos a vários países europeus enfrentando uma onda massiva de protestos populares e distúrbios sociais, como se colhe da imprensa, impulsionados principalmente pela insatisfação com a inflação, o alto custo de vida, a crise imobiliária e a precarização dos serviços públicos.

Como se pode perceber, embora não se trate de um movimento centralizado ou de uma revolução unificada, as manifestações vêm incorporando um forte "efeito contágio" disseminado por meio das redes sociais, gerando greves gerais, acampamentos e severos confrontos com as forças policiais em diversas capitais europeias.

Neste momento, lamentavelmente, a França é o epicentro! É o país que enfrenta o cenário mais caótico, com distúrbios violentos em mais de 140 cidades e em Paris, deflagrados a partir de uma mobilização estudantil da chamada “Geração Z” contra as condições precárias das escolas e a falta de professores. A situação agravou-se quando os “Sindicatos e Trabalhadores da Indústria de Combustíveis” aderiram em massa, dando início a uma escalada de violência, marcada por incêndios em prédios públicos, saques e depredações, forçando o governo a decretar toques de recolher em várias cidades e proibir protestos em pontos estratégicos.

A Espanha, por sua vez, tornou-seo segundo maior foco de agitação no continente, abrangendo Madri, Barcelona, Valência e outras 50 cidades, tendo início com a revolta social gerada pela crise habitacional e o aumento abusivo dos aluguéis, impulsionados pelo turismo, estimulada, especialmente, pela publicizada trágica história de despejo de uma idosa de 87 anos no centro da capital.

Atualmente, manifestantes montaram acampamentos massivos com mais de mil tendas na praça Puerta del Sol, sob o lema “Ni una Maricarmen más”. Professores também iniciaram greves por tempo indeterminado por melhores condições de trabalho.

Na Albânia, nos Bálcãs, o país vive uma crise política severa que se cognominam de "Revolução dos Flamingos". Estas manifestações começaram contra a construção de um resort privado de luxo em uma ilha ecologicamente protegida, mas rapidamente se transformaram em atos generalizados de revolta.

Em continuação do movimento rebelde, milhares de manifestantes têm entrado em fortes confrontos na capital, Tirana, exigindo a renúncia do primeiro-ministro Edi Rama sob acusações de corrupção, nepotismo e falta de emprego para os jovens.

Em Portugal, o país enfrenta marchas concentradas, principalmente em Lisboa e Porto. Ali, centenas de milhares de pessoas ocupam as ruas em protesto contra a inflação, baixos salários e a crise imobiliária que tornaram os aluguéis inacessíveis para os residentes locais.

Na Bélgica, em Bruxelas e Liège, o descontentamento estudantil contra o aumento de taxas de matrícula universitárias e reformas de ensino vem se espalhando rapidamente. Os protestos já ganharam apoio de sindicatos e escalaram para distúrbios violentos contra o custo de vida geral, com a polícia local utilizando jatos d'água e gás lacrimogêneo para dispersar resistentes barricadas.

Na Itália, os estudantes e trabalhadores vêm ocupando as escolas e saindo às ruas em Roma, Milão, Florença e Bolonha. Ali o foco do movimento está na perda do poder de compra e salários estagnados frente à inflação europeia, resultando em tumultos isolados e saques violentos em centros urbanos.

Na Grécia, os trabalhadores de refinarias e estudantes montaram bloqueios e tendas em frente ao Parlamento, em Atenas, cobrando financiamento educacional, segurança laboral e moradia estudantil.

Na Irlanda, milhares de jovens realizaram marchas em Dublin contra as altas taxas acadêmicas e os impactos diretos do custo de vida na subsistência básica.

Chama-se atenção para o fato de que os países europeus com maior volume e proporção de imigração vinda de países africanos e de população muçulmana são exatamente Alemanha, França, Reino Unido, Espanha e Itália.

A França, historicamente, é o país com o maior número absoluto de imigrantes originários da África, com destaque para o Magrebe, Marrocos, Argélia e Tunísia, e África Subsariana, somando mais de 3 milhões de africanos nascidos no exterior, além de possuir uma das maiores comunidades muçulmanas da Europa.

A Alemanha, por seu turno, conta com a maior população total de nascidos no exterior na União Europeia, são cerca de 17,2 milhões de pessoas, recebendo grandes contingentes de muçulmanos, especialmente de origem turca, além de sírios, afegãos e norte-africanos.

Já o Reino Unido possui a segunda maior comunidade de africanos nascidos no exterior, em torno de 1,6 milhão, impulsionada por laços históricos da Comunidade das Nações (Commonwealth), além de uma expressiva população muçulmana vinda do Sul da Ásia e do Oriente Médio.

Por outro lado, a Espanha e a Itália se constituem nas principais portas de entrada no sul da Europa para fluxos marítimos e terrestres vindos do norte da África e da África Subsariana, por meio do Mar Mediterrâneo e de enclaves como Ceuta e Melilla, acumulando grandes populações imigrantes dessas regiões.

E os Países Baixos e a Bélgica são os que apresentam altas proporções de populações de origem norte-africana e muçulmana em suas áreas urbanas, isto como frutos de acordos de mão de obra e processos de reagrupamento familiar iniciados na segunda metade do século XX.

Não restam dúvidas de que a imigração de muçulmanos tem influenciado os movimentos sociais na Europa. Exatamente por isto é que a influência da imigração de populações muçulmanas nas agitações sociais na Europa, tem sido tema de intenso debate e polarização política, com diferentes análises sobre as causas reais das tensões nas ruas europeias. Neste debate, cientistas políticos, sociólogos e governos questionam se a identidade religiosa é um fator causal ou se as agitações decorrem de falhas socioeconômicas e discursos políticos. Fato é que está no epicentro dos debates.

Todavia, para tentar se compreender este cenário atual, tem-se que debruçar-se sobre a perspectiva das tensões culturais e de segurança. Porque um fato que parece evidenciar-se é que o acelerado crescimento da imigração muçulmana provocou fricções profundas na coesão social.

Nesta perspectiva, observa-se que a formação de comunidades isoladas, “guetização”, dificulta a absorção dos valores seculares, democráticos e de igualdade de gênero predominantes na Europa.

Ainda tem-se a preocupação com a ordem pública. Eventos isolados de violência criminal ou episódios de radicalização extremista envolvendo indivíduos de origem imigrante são frequentemente apontados por lideranças políticas como sintomas de uma incompatibilidade cultural, o que catalisa protestos e reações da população nativa.

Além disso, não se pode alhear-se a influência ideológica. Noticia-se que relatórios de inteligência de alguns países monitoram redes associadas ao islamismo político, com a preocupação de que possam instrumentalizar protestos por meio de dirigidas manifestações estudantis para promover agendas ideológicas.

Na perspectiva socioeconômica e da discriminação, verifica-se que sociólogos, organizações de direitos humanos e analistas de esquerda, com aparentes justificativas meramente ideológicas, sustentam que atribuir as agitações à religião oculta problemas estruturais da própria Europa.

Para tanto, argumentam que as agitações nas periferias europeias, como as da França, são motivadas pela falta de oportunidades de emprego, pela pobreza crônica, inflação e escassez de moradia, que afetam desproporcionalmente as populações imigrantes e seus descendentes. Nenhum país tem a obrigação de entregar o mundo sonhado pelo imigrante.

Argumentam, ainda, que as comunidades muçulmanas na Europa enfrentam altos índices de discriminação, racismo e policiamento considerado abusivo, sentindo-se excluídas da sociedade civil, então, grupos de jovens reagem contra o Estado. Parece evidenciar-se a necessidade de que organizações envolvidas com estas comunidades devam orientá-las no sentido de compreender que é dever fundamental do imigrante o respeito à cultura, à ordem jurídica e à segurança interna do novo território abraçado; o seu ficou para trás.

Contudo, não se pode negar que muitas das agitações recentes vivenciadas na Europa surgem de forma bilateral, quando a ocorrência de crimes ou incidentes envolvendo imigrantes acaba gerando violentos protestos anti-imigração estimulados por grupos nacionalistas e acaba desencadeando contraprotestos das comunidades minoritárias e ativistas antirracistas, resultando em um ciclo de polarização nas ruas.

Diante deste cenário mundial, que assusta a todas as nações, somos compelidos a observar que os Estados Unidos sustentam a espinha dorsal militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e da segurança ocidental, com orçamento de defesa e presença de tropas que sobrepujam todos os demais aliados juntos. Nenhum país europeu ou aliado possui capacidade equivalente para projetar poder militar global ou conter rivais estratégicos de forma isolada.

Com o maior Produto Interno Bruto (PIB) do planeta, este estimado em mais de US$ 30 trilhões , os EUA movimentam o comércio internacional e abrigam o dólar como principal moeda de reserva global, exercendo, também, grande influência nas instituições financeiras multilaterais criadas no pós-guerra mundial, como o “FMI” e o “Banco Mundial”, assumindo a liderança econômica e financeira.

Por outro lado, por meio de gigantes da tecnologia, redes sociais e da indústria do entretenimento, como Hollywood e até a música, o chamado American Way of Life, os Estados Unidos moldam comportamentos, valores e o imaginário coletivo de grande parte das sociedades ocidentais.

Por estas razões, sente-se no dever de promover o alinhamento institucional e democrático. Junto a nações da Europa e outras democracias globais, os “EUA” funcionam como fiadores de uma ordem baseada em regras internacionais, tratados de cooperação e blocos de influência que definem o bloco ocidental frente a modelos autoritários alternativos.

Analisando tudo isto, fica evidenciado que os movimentos sociais e as rebeliões na Europa podem afetar diretamente os Estados Unidos, operando por meio de contágio ideológico, pressões geopolíticas e impactos econômicos mútuos. Historicamente e no cenário contemporâneo, a forte conexão transatlântica faz com que a instabilidade em um continente ecoe no outro.

Os principais canais deste impacto incluem:

a) Efeito Contágio e Redes Sociais. Protestos e táticas de mobilização liderados por jovens e ativistas na Europa, como os acampamentos e marchas contra o alto custo de vida e crise imobiliária, circulam instantaneamente nas redes sociais, e isso pode servir de inspiração e modelo para movimentos civis nos “EUA”, que enfrentam frustrações econômicas semelhantes.

b) Os riscos geopolíticos e orçamentários. Grandes ondas de protestos forçam governos europeus a reavaliar suas prioridades orçamentárias para acalmar as ruas. Se parceiros da “OTAN” reduzirem seus investimentos em defesa para atender a demandas sociais domésticas, como educação e habitação, por exemplo, os Estados Unidos podem ser pressionados a assumir uma carga financeira e militar ainda maior na segurança ocidental.

c) O fortalecimento de polarizações políticas e crescimento de extremismos. A instabilidade social na Europa impulsiona partidos e discursos radicais ou antissistema, tanto à esquerda quanto à direita. Esse avanço do populismo valida e alimenta narrativas políticas semelhantes dentro do cenário eleitoral norte-americano, aprofundando a polarização ideológica global.

d) Consequências Econômicas e de Mercado -Instabilidade de Mercados. Greves gerais, paralisações de transportes e distúrbios civis nas principais economias europeias afetam cadeias de suprimentos globais, o turismo e o comércio bilateral. Como os mercados financeiros são interconectados, fortes crises na Zona do Euro tendem a gerar volatilidade nas bolsas americanas.

Portanto, assim sendo, É LEGÍTIMO QUE O “IMPÉRIO” FIQUE EM ALERTA.

Com certeza, os Estados Unidos já estão em alerta com a onda de protestos violentos e rebeliões que se espalhou pela Europa. O governo americano emitiu alertas oficiais de segurança, porque o cenário de instabilidade no continente europeu afeta os “EUA” de forma direta em três frentes principais: política interna, economia global e turismo.

Quanto à repercussão na política interna dos “EUA”,as rebeliões na Europa, motivadas originalmente pela inflação, alto custo de vida e precarização de serviços públicos, tornaram-se combustível para o debate político nos Estados Unidos, especialmente sobre as fronteiras.

O presidente americano já utilizou suas redes sociais e comícios para associar os distúrbios na França e na Itália à "imigração descontrolada", alertando que o caos europeu pode se repetir nos “EUA” se as fronteiras americanas não forem rigidamente fechadas. Embora autoridades europeias apontem que a raiz dos protestos é econômica e liderada pela “Geração Z” local, um tema que foi absorvido pelas campanhas eleitorais americanas.

No temor de “efeito contágio”, os analistas de segurança nos “EUA” monitoram a situação com receio de que táticas de mobilização viralizem e acendam faíscas internas, visto que os “EUA” também enfrentam tensões sociais ligadas a operações de deportação do “ICE” e manifestações urbanas.

Sobre alertas de segurança e o terrorismo, o Departamento de Estado americano agiu imediatamente para proteger seus cidadãos no exterior. A Embaixada dos “UEA” na França já emitiu comunicados de urgência, instruindo turistas americanos a evitarem áreas de manifestação em Paris, Lyon e Lille devido aos confrontos, os saques violentos e os toques de recolher. 00

Orientações e alertas semelhantes foram estendidos para cidades como Milão, na Itália, orientando cidadãos a manterem discrição e monitorarem a mídia local.

No que diz respeito aoimpacto econômico efinanceiro global, a instabilidade nos principais parceiros comerciais dos “EUA” gera volatilidade que atravessa o Atlântico, provocando turbulência nos mercados. O mercado financeiro americano já sente os reflexos. O temor de uma crise fiscal na França fez investidores abandonarem bônus europeus e migrarem para ativos mais seguros, fazendo com que o Euro sofresse fortes quedas frente ao dólar americano.

Por fim, tem-se orisco de estagnação, em face de que o prolongamento dos protestos pode interromper cadeias de suprimentos e enfraquecer o consumo na Europa, resultando em grandes prejuízos para as exportações das empresas dos “EUA” e elevando o risco de uma desaceleração econômica global. Além do que a crise energética, alimentada por conflitos internacionais, continua pesando nos custos de ambos os lados.

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