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HOMENAGEM A RUTH VIDAL

 

O Instituto Brasileiro de Estudos de Direito Administrativo, Financeiro e Tributário – IBEDAFT – solidariza-se com o professor, jurista e companheiro Ives Gandra da Silva Martins pelo passamento de sua amada esposa, prestando uma homenagem à memória de Ruth Vidal em forma de publicação das Cartas de Antanho endereçadas àquela que viria a ser sua esposa e companheira dedicada por longos 66 anos. Essas cartas foram escritas quando ambos se preparavam para ingressar na velha e sempre nova Academia do Largo de São Francisco e publicadas no ano de 2001, conforme textos a seguir reproduzidos.

APRESENTAÇÃO

Tínhamos apenas prestado o exame vestibular para Direito, na Universidade de São Paulo, e namorávamos há 2 meses, quando Ruth foi descansar em Campinas, por uma semana, e eu fiquei em São Paulo, trabalhando.

Escrevi-lhe, na ocasião, 7 cartas nos 7 dias em que ficamos distantes um do outro. Bons tempos aqueles, em que o namoro era respeitoso e que o simples fato de ter ido ao cinema com uma colega e amiga comum, sem qualquer outra intenção, mas sem ter avisado, soava como deslealdade.
As cartas são de amor, de saudade, de expectativa pelas notas do vestibular, que viriam, 2 semanas depois, para a nossa alegria, com os dois ingressando na mais antiga Faculdade de Direito do Brasil.

Ruth aniversaria em 1º de julho e em 31 de julho deste ano comemoraremos 43 anos de casados. Em 24 de dezembro, 48 anos de namoro.

Como lembrança desta existência em comum, ofereço-lhe, em seu aniversário, plaqueta com aquelas cartas, a oitava em latim –o idioma era matéria de vestibular–, com o mesmo amor dos primeiros tempos.

I. CARTA PRIMEIRA À RUTH

Tua carta primeira em versos faço,
Sob um calor sadio e mau mormaço,
Esperando que o tempo em tempo mude,
O corpo tendo preso, sem vontade,
O peito já carpindo uma saudade
E o coração chorando, embora rude.

Malgrado não partida, longe estás
E longe estando está também a paz,
Pois ela, se ela existe, é tua imagem,
E em te sentindo longe já padeço.
E de bem te querer tributo o preço,
Que nunca tributei, mesmo em viagem.

O muito te querer, eis lá meu mal,
Se mal é ser feliz, se do santal
O aroma não seria que por êle;
O muito te querer, se, muitas vezes,
Triste me vem deixar, nunca é por meses
E felizardo sou mais que sem ele.

Talvez avaro seja do que é meu,
Mormente se nos braços de Morfeu,
Porque nascendo assim, assim cresci;
Talvez seja porque já peno penas,
Que apesar de sentí-las tão serenas,
Penando fico só sem ter a ti.

Se soubesses ao menos o que eu era,
Na luta, por ser grande, quase fera,
No amor de conquistar um gentil homem,
Bem sei que tu serias diferente
E nunca mais a linda impenitente,
Senhora dêstes dons, que me consomem,

Enfim, lá vou rumando pela estrada,
Que não desejaria ver trilhada,
Na carta, que te escrevo, sendo a prima,
Porém eu sou levado, sem sentir
Pelas rabugens já de meu porvir
E pelo prazer pálido da rima.

Mas volto ao meu início de missiva,
Se voltar não ofende a bela altiva,
Que venceu , já vencida, um invencível.
Lá finda-se a estação calidamente,
Como a dama outonal, de sangue ardente,
Num derradeiro brilho mais visível.

Por hora vinte e quatro vezes seis,
No tempo, que é do, em guerra, rei dos reis,
Em repouso serei, tendo distante
Aquela, que é madona de meus versos
E que por fados vários e diversos,
Em estudando adora um estudante.

Amanhã talvez Fábio em casa venha,
E ao fogão de minh’alma trará lenha,
Em falando de ti, sendo eu tristonho.
Hei de as coisas, que tenho, colocar
Em ordem para que, quando o luar
Houver chegado, seja e calmo o sonho.

Porém já muito escrevo, gata minha,
Eu espero que não como a andorinha,
Em esta terra dela, possas ser.
Até a carta próxima, querida,
E enquanto já deploro a despedida
Lá partes para novas coisas ver.

II. CARTA SEGUNDA À RUTH

“Pas des nouvelles, cherie”
Eis num verso a carta inteira,
Que se não fosse a primeira
Em prosa viria a ti.

A vida é uma longa esteira,
Que por ali, por aqui,
Se pisada chora e ri,
Muda ao mal, mas sem barreira.

O Bem lá morando à beira,
Quando chamado sorri,
Nada mais. Foi o que eu vi.

E findo à moda caseira,
Estamos na Quarta-feira,
“Pas des nouvelles, cherie”.

III. CARTA TERCEIRA À RUTH

A carta, que escrevo, já sendo a terceira,
Parece esquecida não ser das que fiz;
Se a vida é na mesma emoção rotineira,

Por ser quinta-feira,
O peito saudoso
Não julgo, choroso,
Feliz.

Saudades não sinto mais que as que senti,
Nem menos, contudo, compreendes, Meu Bem?
Amor, qu’inda cresce e do aumento sorri,

Não é para ti.
Amor, se ele é grande,
Nem cresce e se espande,
Vê bem.

Se Fábio, outro dia. Me disse, sorrindo,
“Amigo, sem Ruth, tens corpo não alma”
Não penso que errou, desde que é me tão lindo,

Teu “charme” não findo,
No fundo do olhar,
Que a culpa é sonhar
Na calma.

E a carta, entretanto, de novo em lamento
Bem vejo mudada, porém por não mais,
Que o peito calado, se cala o tormento

De seu sentimento,
Promete notícias,
Não como as das Lícias,
Jamais.

A tua Iramaia lembrou-se de mim
Na noite passada. Falamos bem pouco,
E crê-me, escarlate que eu veja o jasmim,

Se não dei um fim
Aos sonhos da fada.
E basta. Sem nada.
Sou rouco.

E, enquanto te espero, p’ras máguas remédio
Procuro, revendo da Cena o Gigante
No filme de “César”. Que púrpuro assédio!!!

Mas paro que o tédio
Meu peito de antiste
Já veste. Sou triste,
Distante.

P.S. Há pouco, Iramaia, ligou-me, gatinha,
Ficando espantado. Falamos de ti
E se me privaste dizer-te só minha,

Formosa e rainha
Jamais. Se chorou?
Não sei, mas pensou
Que eu vi.

 

IV. CARTA QUARTA À RUTH

O quarto degrau da escada
Já subo. Sinto-me mal
Sem carta alguma, Malvada.

Minh’alma é uma catedral
Por sonhos mil arruinada,
Como a bem mostra o postal.

Imensa é junto da tua,
Porém pequena distante,

E calas-te. A vida é crua,
Mas de esperar doravante….

V. CARTA QUINTA À RUTH

Enfim, à noite, sozinho,
De meu sossego banido,
O corpo todo vencido,
Clemência venho rogar-te.
Quanto sofri! Se penei
Por meus erros não dizer,
Pois tudo fazia crer
Não ser possível enganar-te.

II
Por algo estranho impelido,
Não soube só resistir,
Que o mal de ver-te partir
Mais fraco fêz-me ao prazer.
E a carne rude e mesquinha
Calou-se após de covarde,
Buscando a falta da tarde
Na noite escura esconder.

III
Se tu pudesses sentir
A dor de ter-te enganado
De ter seguido mau fado
Sem forças para lutar,
Talvez a mim perdoasses
E o perdão, que te suplico,
Pareceria mais rico
Se não quisesses negar.

IV
Se jamais esta fraqueza
Puder pagar meu tormento,
Comova-te meu lamento,
Em busca de remissão,
Pois meu prazer desejado
Não tive longe de ti
E os remorsos, que senti
Bem merecem compaixão.

V
Sem carta alguma julgava
Pelas férias deslumbrada,
A novo idílio achegada,
Sem penas de quem ficou,
Que o peito vendo-se só
Ás máguas buscou remédio,
Repleto estando de tédio,
E se fez mal, não pecou.
VI
Mas depois… que sofrimento,
Que de dores não penei,
Tantas quantas jamais sei
De haver penado, se lembro,
Quando as cartas, que escreveste,
Às minhas mãos me chegaram
E se meus olhos choraram,
Chorava o morto Dezembro

VII
Minha alma agora sombria.
Mais que nunca sinto ser,
Como se triste a temer
Não sinta a vida sem ti.
Que de lágrimas não verte,
Que cruas dores não sente,
Vivendo entre estranha gente,
Que à tais sofreres sorri!

VIII
Porém já tudo está feito
E eu vou qual triste mendigo,
Que por destino inimigo
O coração tem partido.
E se padecer é triste,
Depois de se ser contente,
Contudo é bem diferente
Padecer arrependido.

IX
Eu sou como se um penedo,
Carcomido pelo vento,
Que a calma de seu intento
Veio tirar algum dia.
Se se viu, outrora, morto,
Nos reinos deste já posto,
Tornou depois o seu rosto
Ao rosto, que lhe sorria.

X
Mas findo… De joelhos rogo:
À quem foi louco perdôa
O mal de ter ido atôa
Consolo buscar em parte,
Que o coração, que possue,
Se batido de saudade,
Perdeu-se nesta vaidade,
Jamais deixou de adorar-te.

VI. CARTA SEXTA À RUTH

“Saudade gôsto amargo de infelizes,
Delicioso pungir de acerbo espinho”.
Assim falava um português outrora.
Quando se viu da pátria amada longe
E longe a pátria, longe a amada viu.

Com tais versos, querida, princípio
A carta, que por número tem seis.
Seis cartas são as quantas te escrevi
Em troca de somente cartas duas,
Que as outras, que escreveste, inda não tenho,
Como não tenho o que te supliquei.

Em casa tudo bem, se o bem é tudo,
Pois que sarado estou, como o meu pai,
Pois que reina a harmonia, obra celeste,
Pois que trabalho já, graças a Deus.
Todavia não sei se estou contente,
Des que Weimann de novo se perdeu
E não foi desta vez que teve “chanche”.

As notas amanhã, foi que disseram,
(Período Parentético de Réplica)
Na Faculdade expostas restarão.
Que grande a nossa estrela nos proteja!

Sem nada que fazer todos os dias,
Eu não tenho vivido que pra casa,
Salvo uma tarde, que lamento agora,
É Fábio quem por vezes vem me ver,
Dos meus amigos sendo o que só vejo
Porque com ele sobre ti converso.

Meu “vide d’âme”, como tu conheces,
De novo a minha porta esta batendo,
E não tenho quem possa “despachá-lo”.

Por fim, domingo eu estarei contigo,
Talvez lá pelas dez ou dez e meia.

“Voila. C’est tout que j’ai pour bien te dire”.
Um beijão deste louco, que assim é
Por um bem te querer tão loucamente.

VII. CARTA ÚLTIMA À RUTH

Teu perdão conceder tu negaste,
Mesmo o erro dizendo ter feito,
Fui culpado, bem sei, mas culpada
Já tu foste e eu a ti perdoei.

O Perdão não se nega a ninguém,
Nem ao vil, nem ao mau, nem ao fraco,
Nem as coisas, que, mudas, não sentem,
Nem as bestas, que sentem bem pouco.

Ao machado, que o fere, assassino,
Mil perfumes o sândalo exala,
Pois ao mal que o cruento lha causa
Com tal bem êste nobre lhe paga.

Coração mui mais tem, quem não tem,
Do que tu do qual dizes ser grande,
Coração não se sente em palavras,
Que as palavras são vãs quase sempre.

A cadela ao Senhor, que lhe os filhos
Para dar aos amigos, arranca,
Agradece, lambendo-lhe as mãos,
Por um bem, que este mal não apaga.

E tu dizes ao mundo ser grande
O que dentro do peito tu tens,
Quando quem não tem grande maior
Que o que tens para o mundo demonstra.

Assim Dido, assim Turno, assim Júlio,
Com Enéias, Lavínia e com Cina,
De imortais o degrau escalaram
Quando a si de elevados venceram.

Mas me calo, Senhora, me calo,
Que estes versos mal feitos já tombam,
Sem calor, sem talento, sem brilho,
Já prevendo talvez o teu riso,

Que a garganta já rouca, não canta,
Que esta língua parada não fala,
Que o soluço prendido não brota,
Que a verdade escondida não surge,

Porém bradam meus versos partidos
Este grito recôndido e louco,
De quem grita de raiva e de dor
Para que de tristeza não chore.

ANTE DIEM X KALENDAS APRILES
IVES SALUTEM RUTI MITTIT

“Si vales, bene est: valeo”, Cicero scripsit. Ego etiam hodierno die. Tres litteras tuas mecum, quas pluribus veritatibus factos accepi habeo. Nam tu me de proscriptorum numero exemisti, etsi culpam habere autem, et per poetae non fortis voce mea clementiam humili petenti et per cogitationibus meis litteris mandantibus, mota, gaudeo. Rem esse felix sum.

Magnus Ovidius per Glauci ore dixit: “Prius in aequore frondes et in summis nascentin montibus algae sospite guam Scylla nostri mutentur amores”. Ego non Ovidius sum, sed cum illo nobilitate, ingenio virtute amoris mei cogito et “Pro Marcello “oratione de tua victoria, ipsam te domare, vincere animum, epistolam scribendi, verbos colloco: “Haec qui faciat non ego em cum summis viris comparo, sed simillimum deo judico”.
De nota nescio. De totis rebus nostis etiam. Dedisti aliquem in litteras tertias. Cur? Solus sum, credo solam esse. Laboro.
Valebis.

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